O Último Destino (2000)
"O Último Destino" apresenta uma premissa brilhante, original e cativante. O filme cria uma atmosfera densa e misteriosa desde as primeiras cenas, reforçada pela sua cinematografia ligeiramente enevoada, como se uma névoa constante estivesse presente em todo o ecrã. Esta escolha visual contribui para a tensão do filme e sugere a presença invisível da morte, tornando a experiência ainda mais intensa. O protagonista, Alex, destaca-se pela sua resiliência e inteligência, sendo obrigado a enfrentar uma realidade aterradora: compreender os desígnios da morte a partir de uma série de premonições que o afligem. É o primeiro a perceber o que realmente está a acontecer, tendo de navegar no caos que se segue à catástrofe inicial – a explosão do avião, arrepiante e extraordinariamente bem executada. A cena é tão realista que nos faz sentir o terror de cada personagem.
Contudo, um aspeto que me pareceu forçado foi a reação dos outros sobreviventes, que, excetuando a Clear, parecem ignorar o facto do Alex lhes ter salvo a vida. Em vez de demonstrarem gratidão, viram-lhe as costas, um comportamento estranho e ilógico, sobretudo face à gravidade da situação. No entanto, o filme compensa isso com a forma criativa como as mortes são apresentadas, mantendo o público em suspense e curioso sobre como a morte irá reivindicar as suas vítimas. Apesar de a maioria das mortes serem criativas e impactantes, a morte na banheira, em particular, pareceu-me mal realizada, com uma execução técnica abaixo das expectativas. Por outro lado, gostei muito da forma como o filme explorou a ideia de que Alex era suspeito de ser um assassino, levando a polícia e os restantes personagens a questionarem a sua inocência, o que ajudou a criar uma tensão psicológica mais densa.
Quanto às personagens, embora algumas sejam bastante estereotipadas, como o rufia ou as colegas populares, Alex e Clear são exceções notáveis. A relação entre eles é bem construída, e o diálogo que partilham à noite, sobre a importância de aproveitar a vida e enfrentar os problemas, ajuda a criar uma ligação emocional com o público. Alex, apesar de todos os riscos, tenta salvar os outros sobreviventes, mesmo sabendo que poucos acreditam nele, o que reforça o seu altruísmo como protagonista.
O clímax do filme, em que o Alex sacrifica-se para salvar a Clear, é um momento poderoso que sublinha a sua coragem. O final, com a passagem do tempo até Paris, é quase simbólico – os sobreviventes chegam ao seu destino original, apenas para perceberem que nunca conseguiram realmente escapar à lista da morte. Este final em aberto, que encerra o filme de forma circular, é eficaz e deixa uma sensação de que o destino é inescapável.
Nota: 8/10
O Último Destino 2 (2003)
O segundo filme da saga começa com o que considero a melhor sequência de catástrofe inicial de toda a franquia: o acidente na Estrada 23. Esta cena é impressionante, pela escala do desastre, pelo uso de efeitos práticos, que conferem um realismo arrepiante. Ao contrário de muitas produções que abusam de efeitos especiais, esta cena destaca-se precisamente pelo realismo, o que faz com que cada momento seja ainda mais tenso e assustador.
Neste filme, temos uma nova protagonista, Kimberly, que se revela uma personagem empática e assertiva. A sua natureza igualmente altruísta diferencia-a do Alex, uma vez que ela tenta salvar pessoas que não conhece de lado nenhum, não apenas amigos ou colegas. Este elemento torna a jornada dela ainda mais interessante. A mudança de realizador é evidente, com o filme a apresentar uma realização mais dinâmica, quase de ação, mas sem perder o mistério e o peso psicológico que caracterizaram o primeiro filme. O grupo de sobreviventes é o mais forte da saga, em termos de coesão, e a forma como a morte começa a agir ao contrário, baralhando a ordem das mortes, introduz uma inovação intrigante.
A exploração dos conceitos sobre a lista da morte é aprofundada aqui, com ideias como a de que só se morre quando a morte decide, sendo o caso de Eugene, que tenta suicidar-se sem sucesso, um bom exemplo disso, ou como uma vida nova derrota a morte. Gostei particularmente do regresso da Clear, que ajuda a interligar este filme ao primeiro. No entanto, achei pouco coerente que alguém que, no primeiro filme, falava sobre como era essencial não viver com medo, agora esteja trancada numa instituição por receio da morte. Apesar disso, o filme tem uma boa progressão e culmina num clímax alucinante, onde, mais uma vez, o sacrifício altruísta é o ponto central.
A morte da Kimberly, que depois é reanimada, foi uma reviravolta inesperada e eficaz para ludibriar a morte. O final deste filme, com uma nota cómica, quebra um pouco o tom pesado da saga, mas é uma maneira refrescante de terminar. Este filme deixa um marco diferente na franquia, mostrando que é possível vencer o desígnio da morte.
Nota: 9/10
O Último Destino 3 (2006)
O terceiro filme da saga, "O Último Destino 3", segue uma estrutura muito semelhante ao primeiro, o que, embora diminua um pouco o impacto da inovação, não prejudica a qualidade da execução. A história centra-se em Wendy, uma nova visionária que com os seus colegas finalistas na noite de formatura vão a um parque de diversões. A protagonista pressente um desastre numa montanha-russa. Esta cena é absolutamente fantástica, uma das poucas cenas de catástrofe envolvendo uma montanha-russa que vi num filme, e está brilhantemente executada, apesar de alguns efeitos gráficos parecerem um pouco artificiais. A Wendy é uma protagonista forte, e a atriz que a interpreta tem uma performance excelente. Ao seu lado, temos Kevin, que assume um papel importante na narrativa. Ele é astuto e é quem convence a Wendy a relacionar aquilo que sente com algo mais sombrio, baseando-se nos eventos dos filmes anteriores.
A dinâmica entre a Wendy e o Kevin é boa, juntos formam uma dupla interessante, especialmente pela forma como trabalham juntos para decifrar o plano da morte. As mortes neste filme seguem a linha criativa, mas o que realmente se destaca aqui é a introdução de um novo conceito: as fotografias que contêm pistas sobre as mortes futuras. Embora este elemento traga frescura à narrativa, nem sempre é bem explorado, causando por vezes confusão tanto nas personagens como no público, pois as dicas nem sempre são claras. Os sobreviventes deste filme são menos unidos do que nos anteriores, e isso fica evidente nas poucas discussões e momentos em que estão juntos.
A morte das irmãs no solário é particularmente horripilante e bem executada, destacando-se entre as outras mortes do filme. O filme tem um ritmo acelerado, e o clímax chega rapidamente, numa cena que decorre durante a festa de aniversário da cidade, onde a Wendy consegue salvar a irmã, Judy. Esta personagem, embora tenha uma participação pequena, é importante para o desenvolvimento emocional de Wendy.
Tal como no primeiro filme, há uma passagem temporal no final, com a Wendy a viajar de metro e a perceber que a sua morte está iminente. O facto de ela ignorar sinais tão óbvios, sendo uma protagonista tão atenta até então, pareceu-me incoerente. Ainda assim, o final é ambíguo, e embora muitas pessoas acreditem que o som ouvido no final seja a morte a reclamar as suas vítimas, pessoalmente acho que o som corresponde aos travões do metro. Apesar de algumas falhas, "O Último Destino 3" é um filme bem realizado, com protagonistas carismáticos e uma reciclagem eficaz da fórmula do primeiro filme.
Nota: 7/10
O Último Destino 4 (2009)
O quarto filme da saga "O Último Destino" marca um declínio em comparação com os seus predecessores, apresentando uma qualidade que se afasta da essência original. A cena inicial, passada numa corrida de rali, destaca-se como uma das mais fracas da série. O uso excessivo de CGI, e ainda por cima de fraca qualidade, torna esta cena mais risível do que eficaz em gerar tensão. Os efeitos visuais são tão artificiais que quebram completamente a imersão, fazendo com que a cena perca qualquer credibilidade ou impacto visual, essencial em filmes de terror.
O protagonista desta incursão é o Nick, o visionário que prevê o desastre no rali. Embora o ator que o interpreta não faça um mau trabalho, e a personagem seja a mais suportável, o problema central é o guião pobre e personagens sem profundidade. Quando conhecemos o grupo de amigos principal, percebemos de imediato que a qualidade da escrita e da execução caiu drasticamente em relação aos filmes anteriores. As personagens são mal desenvolvidas e completamente desinteressantes, ao ponto de ser difícil lembrar-se sequer dos seus nomes. Sem uma conexão emocional ou histórias de fundo que nos permitam criar empatia, as suas mortes tornam-se irrelevantes, o que, num bom filme de terror, é um erro imperdoável. Afinal, uma das chaves para a eficácia deste género é o público torcer pela sobrevivência das personagens, ou pelo menos sentir o impacto da sua perda, algo que simplesmente não acontece aqui. A atmosfera do filme tem um tom quase cómico, o que desvirtua por completo o estilo mais sombrio e psicológico da saga.
As cenas de sexo e nudez inseridas parecem um truque barato para atrair um público adolescente, numa tentativa óbvia de "vender" o filme através do corpo. Este tipo de abordagem deslocada diminui a seriedade do filme, que é totalmente fora de sintonia com o que tinha sido oferecido até então. Embora tenha sido o filme mais bem-sucedido de bilheteira, este sucesso deve-se em grande parte à febre do 3D, que estava no seu auge nos cinemas na altura. Caso contrário, nunca teria atingido números tão impressionantes. As personagens são unidimensionais, ao ponto de não sentirmos qualquer ligação ou preocupação pelas suas mortes. As personagens, afirmam várias vezes durante o filme que "tudo voltou ao normal", o que mostra que nem sequer percebem o que lhes está a acontecer.
A sensação de grupo é quase inexistente, com personagens que mal interagem antes de morrerem, criando uma desconexão total. O protagonista, pelo menos, mostra um esforço para salvar outras pessoas, mesmo sem as conhecer, o que é uma qualidade redentora na sua caracterização. Outro grande problema é que o filme parece ter-se esquecido do verdadeiro conceito: o plano da morte e a inevitabilidade do destino. Mencionam-se brevemente os desastres dos filmes anteriores, mas o filme falha em transmitir aquela sensação de uma força maior, de um plano superior e implacável a trabalhar nos bastidores. A trama gira em torno das visões de Nick, mas falta a imponência e as pistas que costumavam construir a narrativa de uma forma mais envolvente. Tudo é tratado de forma superficial, sem a gravidade e o peso dos outros filmes. As mortes, que são uma marca da série, estão longe de serem criativas ou impactantes. O CGI datado e evidente torna-as pouco impressionantes, como se o filme estivesse sempre a tentar "saltar para fora do ecrã" em 3D, sem nunca atingir o seu objetivo de chocar ou surpreender.
A única (quase) morte verdadeiramente memorável, é a cena na lavagem de carros, que consegue trazer um pouco de tensão e criatividade ao filme, mas não é o suficiente para salvar o resto. O clímax do filme, com as cenas no centro comercial, faz o filme ganhar algum ritmo, mas até essa pequena recuperação é insuficiente. A cena final, que tenta trazer uma reviravolta ao revelar que as personagens estavam destinados a morrer de qualquer forma, tinha potencial, mas a sua execução foi desastrosa. O uso de efeitos de raio-X no final foi uma escolha visual lamentável, uma forma preguiçosa de encerrar o filme de forma estilística, e falhando completamente em termos de impacto emocional ou estético.
No geral, é um filme vazio, com poucas ideias. As mortes não têm sentido, as personagens são esquecíveis. É um capítulo que facilmente poderia ter sido evitado, pois não contribui em nada para o legado que estava a ser construído.





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