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2025: O ANO NEGRO DOS CINEMAS EM PORTUGAL

O ano de 2025 ficará registado como um ponto de rutura na história da exibição cinematográfica em Portugal. Ao longo de doze meses, um número inédito de complexos de cinema encerrou portas, muitos deles com décadas de atividade, deixando cidades inteiras sem qualquer sala de exibição. Em comum, quase todos os casos revelam o mesmo padrão: fim de contratos, centros comerciais em declínio ou em reconversão e a dificuldade de sustentabilidade do modelo de cinema de shopping.

NOS Cinemas MaiaShopping (Maia)

Inaugurado em 1997, o cinema do MaiaShopping contava com cinco salas e mais de 900 lugares. Foi explorado desde sempre pela Lusomundo / NOS Cinemas.
O encerramento definitivo ocorreu a 6 de janeiro de 2025, na sequência do término do contrato com o promotor do centro comercial, que decidiu alterar a utilização do espaço.
Segundo Nuno Aguiar, diretor-geral da NOS Cinemas, a empresa tem vindo a concentrar a operação em multiplex com maior escala: “Para suportar um determinado cinema, temos que ter no mínimo cinco salas e massa crítica suficiente”.

NOS Cinemas Tavira Plaza (Tavira)

As salas do Tavira Plaza encerraram em agosto de 2025, também após o fim do contrato de exploração com a NOS Cinemas.
Nuno Aguiar explicou que o promotor optou por “mudar para outro tipo de atividade”, sublinhando que o setor da exibição em Portugal é “dinâmico” e dependente das oportunidades e decisões imobiliárias. Este foi o segundo encerramento da NOS em 2025, depois do MaiaShopping.

NOS Cinemas Alvaláxia (Lisboa)

O complexo do Alvaláxia foi inaugurado em 2003, então com o nome Cinemas Millenium Lisboa, contando originalmente com 16 salas uma das quais com um sistema pioneiro de projeção digital. A exploração inicial esteve a cargo do produtor Paulo Branco, passando mais tarde para a NOS Cinemas, que operava 12 salas nos últimos anos.
Em 2025, o Sporting Clube de Portugal decidiu não renovar o acordo de exploração, no âmbito da requalificação do antigo centro comercial, entretanto adquirido pelo clube em 2024. O espaço será convertido num novo projeto de experiência imersiva. O encerramento era há muito antecipado, num centro comercial que nunca conseguiu plena vitalidade e que se tornou um “shopping fantasma”.

NOS Cinemas Fórum Viseu (Viseu)

Inauguradas em 2005, as salas do Fórum Viseu foram sempre exploradas pela NOS Lusomundo Cinemas.
O encerramento ocorreu em 2025, com o centro comercial a justificar a decisão com o término do contrato previamente estabelecido, enquadrando-a num processo de “renovação e atualização do portfólio de lojas”. Está em desenvolvimento um novo projeto para o espaço.

O colapso da rede Cineplace

Grande parte dos encerramentos de 2025 envolve a Cineplace, empresa brasileira que assumiu muitos cinemas após a insolvência da Castello Lopes, em 2013.

Cineplace Madeira Shopping (Funchal)

Inaugurado em março de 2001, com sete salas, este foi um dos maiores cinemas da Região Autónoma da Madeira. Foi explorado inicialmente pela Castello Lopes e reabriu em 2013 sob a marca Cineplace.
O cinema encerrou em agosto de 2025, deixando a região apenas com o NOS Fórum Madeira. O espaço encontra-se em obras e dará lugar a nove novas lojas, com abertura prevista para 2027, incluindo a chegada da Primark.

Cineplace La Vie Caldas da Rainha

O cinema abriu em 2008, quando o centro comercial ainda se chamava Vivaci, sendo explorado pela Vivacine. Em 2016, passou para a Cineplace. O encerramento ocorreu em dezembro de 2025. Nem a exibidora nem a administração do centro comercial esclareceram se o fecho é definitivo, embora não existam indicações de reabertura.

Cineplace La Vie Guarda

As quatro salas abriram igualmente em 2008, sob exploração da Vivacine, passando para a Cineplace em 2016. Encerraram ao público a 26 de dezembro, com a indicação de fecho “por tempo indeterminado”. Até ao momento, nunca reabriram, sendo altamente improvável o regresso da atividade cinematográfica naquele espaço, pelo menos pela Cineplace.

Cineplace Rio Sul Shopping (Seixal)

Inaugurado em 2006, com sete salas, foi inicialmente explorado pela Castello Lopes. Após o encerramento em 2013, reabriu sob a Cineplace. Fechou sem qualquer explicação pública no verão de 2025. Está confirmado que o espaço não voltará a funcionar como cinema.

Cineplace Algarve Shopping (Guia, Albufeira)

Este cinema de grandes dimensões abriu em abril de 2001, com nove salas, sob exploração da Castello Lopes, passando para a Cineplace em 2013. Encerrado no final do verão de 2025, o espaço será ocupado por uma loja de grande dimensão da JD Sports, refletindo a tendência de substituição de cinemas por retalho mais lucrativo.

Cineplace Centro Comercial Continente Portimão

O cinema abriu nos anos 2000 e foi explorado pela Castello Lopes até janeiro de 2013, reabrindo no mesmo ano como Cineplace, com seis salas num piso inteiramente dedicado.
O encerramento ocorreu em novembro de 2025, encerrando mais um polo cinematográfico no Algarve.

Boas Notícias em 2025 no entanto

Apesar do cenário marcado por encerramentos sucessivos, 2025 não foi apenas um ano de más notícias para a exibição cinematográfica em Portugal. Houve também investimentos, requalificações e até reaberturas que demonstram que o cinema em sala continua a ter futuro quando existem condições, escala e estratégia adequadas.

O exemplo mais emblemático veio de Lisboa, com a profunda remodelação do multiplex das Amoreiras, um dos cinemas mais emblemáticos do país. As sete salas, que celebraram 40 anos de existência em 2025, foram alvo de uma intervenção faseada ao longo de vários meses, envolvendo a substituição de cadeiras, ecrãs, sistema de som e ar condicionado.

O investimento, no valor de 700 mil euros, foi realizado conjuntamente pela NOS Cinemas e pela Mundicenter, entidade gestora do centro comercial. Segundo Nuno Aguiar, diretor-geral da maior exibidora de cinema em Portugal, a remodelação não alterou a identidade do espaço, que continuará a apostar numa programação diversificada, conciliando cinema de autor, produções independentes e grandes estreias comerciais, sem aumentos significativos no preço dos bilhetes.

“A NOS é assumidamente um exibidor comercial de cinema e, para que se consiga, nos moldes em que exibimos cinema, ter uma massa crítica que permita suportar um determinado cinema, temos que ter no mínimo cinco salas”, sublinhou Nuno Aguiar, reforçando a aposta da empresa em multiplex consolidados.

O responsável reconhece que nem todas as capitais de distrito dispõem de infraestruturas adequadas para este modelo, mas rejeita uma visão pessimista do setor: “Apesar das assimetrias no acesso ao cinema em sala, há espaço para todos. E todos queremos que o cinema em sala tenha futuro”.

Portimão: de encerramento a reabertura em tempo recorde

Outro sinal positivo surgiu no Algarve. Depois do anúncio do encerramento das salas do Centro Comercial Continente de Portimão, em novembro de 2025, muitos espectadores deram como certo o desaparecimento definitivo do cinema naquele espaço. No entanto, o fecho revelou-se temporário.

A 18 de dezembro de 2025, apenas algumas semanas depois, as seis salas de cinema reabriram, agora sob exploração da NOS Cinemas, devolvendo à cidade de Portimão um equipamento cultural essencial. O complexo, localizado no segundo piso do centro comercial, passou assim a integrar a rede da maior exibidora nacional.

Embora alguns comentários nas redes sociais apontem que a reabertura ocorreu com uma remodelação ainda limitada, aquém da qualidade de outros multiplex da NOS, a expectativa é de que o espaço venha a ser progressivamente melhorado, à semelhança do que tem acontecido noutros cinemas integrados na rede.

2026: entre incertezas, requalificações e resposta política

Depois de um 2025 marcado por encerramentos em cadeia, 2026 poderá ser um ano decisivo para redefinir o futuro da exibição cinematográfica em Portugal

Um dos casos que gera maior apreensão é o do Cineplace Estação Viana Shopping, em Viana do Castelo. O complexo, composto por quatro salas, continua em funcionamento, mas o seu futuro permanece incerto desde que, em maio de 2025, a administração do próprio centro comercial solicitou a desafetação das salas de cinema.

Em declarações à agência Lusa, a Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC) confirmou, a 7 de agosto, que o pedido partiu do proprietário do espaço, a Estação Viana Centro Comercial, S.A.. Apesar disso, e pelo menos para já, o cinema explorado pela Cineplace mantém-se em atividade. Curiosamente, a exibidora manifestou inclusive intenção de continuar a investir no espaço, o que torna o processo particularmente ambíguo e dependente da decisão final do promotor imobiliário. Caso se concretize, este poderá ser um dos próximos encerramentos a marcar 2026.

Já na Figueira da Foz, o cenário é distinto e assume contornos mais otimistas. O Foz Plaza, que alberga atualmente um cinema NOS com cinco salas de pequena e média dimensão, deverá encerrar temporariamente as salas existentes no âmbito de um ambicioso projeto de renovação e expansão do centro comercial.

Com um investimento global estimado em 30 milhões de euros, o novo Foz Plaza prevê a criação de um andar dedicado exclusivamente ao cinema, permitindo a instalação de um complexo maior, mais moderno e tecnologicamente atualizado. O projeto inclui ainda uma nova praça de restauração, a ser transferida para uma estrutura lateral de dois pisos, com uma esplanada panorâmica com vista sobre a cidade e, em condições favoráveis, até sobre o mar. Neste caso, o encerramento não representa o desaparecimento do cinema na cidade, mas antes uma aposta clara na sua valorização futura.

Pela primeira vez em muitos anos, a crise da exibição cinematográfica entrou de forma explícita na agenda política. No âmbito da discussão do Orçamento do Estado para 2026, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, anunciou no parlamento a criação de um grupo de trabalho dedicado exclusivamente à exibição de cinema.

Questionada sobre o crescente número de pedidos de desafetação e encerramento de salas, a ministra afirmou que “o tema da desafetação está no topo das prioridades do Governo”. O grupo de trabalho integra o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) e a IGAC, tendo como missão “avaliar a melhor forma de responder ao crescimento, este ano, dos pedidos de desafetação de salas”.

A intervenção surgiu durante a apreciação na especialidade da proposta de lei do Orçamento do Estado para 2026, em sessão conjunta da Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública e da Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, sinalizando uma preocupação transversal com o impacto cultural e territorial do desaparecimento dos cinemas.

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